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Parceria entre UEL e instituto alemão investe em terapia para tratamento de melanoma

Estudo inédito realizado no Laboratório de Patologia Molecular, do Centro de Ciências Biológicas (CCB), em colaboração com o Instituto de Ciência do Plasma e Tecnologia de Leibniz, Greifswald, localizado na Alemanha, propõe uma nova terapia com a utilização de Plasma Físico Frio (PFF) para tratamento do melanoma – tipo agressivo de câncer de pele que não tem cura. Considerado o quarto estado da matéria – além dos estados sólido, líquido e gasoso – o plasma é um gás ionizado, que produz radicais livres.

Quando aplicado sobre o câncer de pele (melanoma), ele destrói apenas as células cancerígenas, sem trazer grandes efeitos colaterais, como é o caso dos tratamentos convencionais para a doença. Além disso, a alternativa tem baixo custo, inclusive com efeito ainda melhor quando combinado com alguns quimioterápicos, que podem ser utilizados em concentrações e doses menores. Segundo os pesquisadores, as pesquisas tanto com células in vitro, quanto em roedores já mostram resultados promissores.

A doutoranda Gabriella Pasqual Melo, juntamente com o orientador Rajesh Gandhirajan, do instituto alemão, veio para Londrina para testar em animais o que já haviam identificado com pesquisas em células. Durante duas semanas, conduziram experimentos com roedores para a validação deste tipo de tratamento em modelo experimental de câncer de pele.

Os estudos foram desenvolvidos no Laboratório de Patologia Molecular, coordenador pela professora Alessandra Lourenço Cecchini Armani, do Departamento de Ciências Patológicas, do CCB. Na Alemanha, as pesquisas em células são conduzidas pelo professor Sander Bekeschus.

Gabriella Melo conta que já foi possível testar o plasma com outros quimioterápicos. Foram utilizadas 46 drogas já aprovadas para o tratamento do câncer de pele, sendo que cinco delas mostraram efeitos potenciais quando utilizadas em conjunto com o plasma. Com esta primeira constatação vieram para a Universidade, com o objetivo de testar em roedores.

O motivo da escolha por Londrina? Gabriela é graduada em Biomedicina pela UEL e mestre pelo Programa de Pós-graduação em Patologia Experimental. Ela já atuou em pesquisas na instituição, portanto, conhecia a estrutura oferecida com cultura de células e experimentos in vivo. “A gente até poderia montar o laboratório lá, mas foi a oportunidade que vi de não esquecer o laboratório daqui, de tudo que aprendi, para trazer algo que fosse bom para eles e para a UEL também”, afirma a pesquisadora que desde outubro de 2017 está na Alemanha.

Durante o período no Brasil, as pesquisas são conduzidas da seguinte maneira: os camundongos são transplantados com as células de melanoma. Após cinco dias começa o tratamento, da mesma forma como seria feito em um paciente humano em uma clínica. Primeiro é injetado um dos cinco tipos de quimioterápicos na corrente sanguínea do animal e, em seguida, os pesquisadores fazem a aplicação do plasma diretamente na lesão.

Por último, os pesquisadores fazem a comparação com um animal não tratado, avaliando se o câncer aumentou ou diminuiu. Eles também avaliam as doses de químicos ministradas. Gabriella explica que, confirmados os resultados da pesquisa, vai ser possível utilizar os mesmos quimioterápicos já aprovados, porém em doses mais baixas, levando o paciente a futuramente ter menos efeitos colaterais.

Plasma – Conhecido por estar presente no sol e ter elevadas temperaturas, o plasma utilizado na pesquisa é produzido em laboratório e permanece em temperatura ambiente. Recebe o nome de Plasma Físico Frio (PFF). Segundo a professora Alessandra Cecchini, quando aplicado na pele é possível sentir apenas um jato de ar.

A doutoranda Gabriella Melo explica que o plasma é formado quando se aplica uma corrente elétrica no gás, que o torna ionizado. No Laboratório de Patologia Molecular é utilizado o argônio, um gás nobre que, ionizado reage com o ar ambiente, que contém moléculas de água, oxigênio e nitrogênio. Ionizadas, essas moléculas formam radicais livres, que ao serem direcionados para o tecido, reagem com a célula tumoral.

O pesquisador Rajesh Gandhirajan conta que em estudos na Alemanha e Estados Unidos, o plasma é clinicamente aprovado para cicatrização de ferida diabética. Segundo ele, também é usado no tratamento paliativo de câncer de cabeça e pescoço, caso tenham úlceras.

O interessante é que o plasma tem efeito antagônico nas diferentes aplicações. Rajesh explica que em feridas, ele melhora a cicatrização para que haja fechamento da úlcera. Já em células cancerígenas, atua na mitocôndria destas e as destroem, sem prejudicar outras células do corpo.

Outra vantagem do plasma é o baixo custo, quando comparado com outros quimioterápicos. Um cilindro de argônio custa em média 750 reais. “O que a gente deseja é algo barato e acessível a todos”, afirma a professora Alessandra Cecchini Armani.

Os pesquisadores pensam em ir além nos estudos. Eles explicam que com o plasma é possível fazer um líquido ativado, como uma solução fisiológica, que pode ser injetada no paciente e utilizada para tratar câncer de órgãos internos. Esse líquido também poderia ser utilizado para lavar áreas cirúrgicas de onde o tumor foi retirado, para destruir as células cancerígenas que ainda estiverem no local. A professora Alessandra afirma que o objetivo é de, num futuro próximo, fazer a aplicação em humanos com esse líquido ativado.

Melanoma – Considerado o tipo mais difícil de ser tratado, o melanoma sofre diversas mutações celulares, por isso não responde com eficiência aos tratamentos químicos convencionais, como quimioterapia e radioterapia. Ele pode aparecer em qualquer tecido que tenha melanócito, como mucosa e cavidades.

A professora Alessandra explica ainda que o melanoma da mucosa é diferente do encontrado na pele e na unha, por exemplo. Apesar do mesmo nome, a patogênese, o mecanismo e a agressividade são diferentes. O câncer de pele não é tão agressivo, por exemplo, do que o encontrado palma da mão e dentro da unha.

“Esse é um dos motivos porque a terapia é sempre combinada, com mais de um alvo. E esse é um dos motivos de usar o plasma, que pode ser usado em combinação a um quimioterápico e o tratamento ser mais efetivo”, defende a professora.

Colaboração – Alessandra Lourenço Cecchini Armani se mostra muito otimista com as pesquisas entre os países. Para ela, esta colaboração entre os laboratórios é uma oportunidade de internacionalização. Além disso, destaca o papel da Pós-graduação em Patologia Experimental, que alcançou nota 6 pela avaliação da CAPES, e as possibilidades de mais pesquisas conjuntas. “Para a formação humana de um jovem pesquisador isso é fundamental”, afirma.

É o que defende também o pesquisador Rajesh Gandhirajan, que avalia o trabalho como complementar para as pesquisas e vantajoso para as duas partes. Vale ressaltar que a colaboração ainda não está formaliza entre as instituições, mas o objetivo é estabelecer a pesquisa por muitos anos, inclusive visando experimentos com pacientes, com a devida aprovação do Comitê de Ética.

Fonte
Fonte: Agência UEL

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